terça-feira, 21 de abril de 2009

Baliza

Baliza morria de amor. Pelo Geraldo.
Pouco importava se ele era beberrão, jogador inveterado, homem de mil vícios e mil mulheres. O importante é que Geraldo gostava dela e, vez por outra, lhe fazia um carinho.
Dono da Fazenda da Serra, Geraldo negociava gado e vivia do trabalho sem horário, sem patrão e sem limites. Na cidade, era Juiz de Paz. Fazia casamentos, resolvia discórdias de todo tipo e, eventualmente, ia atrás de algum sujeito bom de conversa, para criar concórdias - com sua lábia ou revólver - sobre a livre e espontânea vontade de casar com a moça semi-virgem de família honrada.
Todo dia, Baliza o acompanhava a quase todos os lugares e junto dele sentia-se feliz por andarem descompromissados de tudo naquela pequena cidade, pouco ligando quando o cavalo, já escolado, parava em cada bar que pudesse existir. Escala para mais uma caninha, um cumprimento, uma dama de vinte minutos ou um tiro em mais um.
Paciente, ficava andando pela praça da igreja matriz, passeando faceira e olhando tristinha as pessoas da praça, com a resignação dos que passam os dias esperando por migalhas de amor; por um sorriso ou pela alegria de ver seu nome pronunciado rapidamente por ele. Humilde e tolerante, aguardava ansiosa a saída do Geraldo de cada lugar. Satisfeita com o simples fato de ficar próxima de quem tanto amava.
Baliza era assim. Baliza amava assim.
Nas noites de insônia na varanda, ficava olhando o semblante daquele homem, como que hipnotizada pela fascinação, procurando talvez, descobrir-lhe as inquietudes.
Quando Geraldo vestia o paletó de tecido grosso e punha seu chapéu Panamá, alegrava-se por saber ser o momento de saírem, exceto quando ele dizia ir jogar. Não ia junto nessas ocasiões, que não eram poucas. Ele chegava a ficar três dias e três noites seguidas jogando baralho e apostando dinheiro. Bom jogador, não costumava perder.
Nessas vezes, precisava ficar na casa da fazenda porque, no caso de aparecer algum comprador ou vendedor, era ela quem iria na fazenda do Chico Nego ou outra qualquer onde ficava a jogatina, para avisar e trazer de volta o seu querido. Bastava a Benedita dizer:
- Baliza, vá buscar o Geraldo que tem gente querendo falar com ele!
Pura alegria. Lá ia pela estrada, morrendo de felicidade por poder ajudar mais uma vez, o homem de sua dedicação de vida, a sua razão de viver.
Invariavelmente o encontrava já cheirando à destilado forte e perfume de alguma mulher de ocasião, porém, nunca bêbado. Geraldo parecia impermeável com bebidas. O máximo que acontecia era ficar mal humorado com a interrupção do jogo por Baliza e resmungar-lhe uns palavrões. Mas, só se estivesse perdendo muito no jogo. Se não, vinham alegres e brincando pelo caminho, pensando no bom negócio que esperava em casa.
Um dia, numa cerca de arame farpado, Geraldo machucou-se e contraiu tétano. Foram 40 dias naquela cama. Ironicamente, aquele homem forte de 33 anos, com caráter e temperamento únicos, ia sendo derrubado pelo que menos se podia esperar: a doença.
Durante todos esses dias, Baliza ficou ao seu lado. Abatida e muda, passava dias e noites com os olhos caídos como quem faz a oração do desespero. Pouco comia e mal conseguia tomar um pouco de água. Ao lado de quem tanto amava, sofria calada, sem protesto ou queixa.
No meio da sala, uma pessoa levantava o véu preto sobre o caixão. Era a única coisa que fazia com que levantasse os olhos, sentada alerta sobre aquele banco; protegendo, a seu modo, aquele que não mais de proteção precisava. Seguiu todo o cortejo ao lado do caixão.
Quando tudo terminou, todos voltaram às suas casas. Menos Baliza.
Deitada sobre o túmulo, ali ficou por horas, dias. E, por mais que tentassem, não conseguiam retirá-la de lá; convencê-la ou arrastá-la de volta ao lar. Nesse tempo, cada momento vivido deve ter passado por sua cabeça e, acredito, nem ela se sabia capaz ou o porquê de tanto amar.
Um certo dia o sol se pôs e alguém a encontrou já no fim de sua agonia. A fiel cadelinha morria sobre o túmulo de seu dono.
Baliza morria de amor. Pelo Geraldo.
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texto: paulo moreira
crédito de imagem: photoforum - rússia

Um comentário:

Rosani Nauar disse...

Querido Amigo Paulo



Esse um dos textos seu que eu mais gosto. Essa música simplesmente linda.






beijos